DO OC – Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã, no dia 28 de fevereiro, os preços do petróleo dispararam. O barril do Brent, referência internacional para o petróleo bruto, ultrapassou US$ 100 algumas vezes em menos de 15 dias de conflito (no dia 27 de fevereiro, véspera do conflito, o barril havia fechado em US$72,48).
O preço da commodity é influenciado por diversos fatores ligados ao conflito: duração, intensidade, interrupção na produção — o Oriente Médio é responsável por cerca de 48,7% da produção global — e o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã. A rota marítima é estratégica para o comércio global de combustíveis fósseis: cerca de 20% do petróleo consumido no mundo passam por ali.
Embora a alta possa representar mais lucro para as petroleiras, quem acaba pagando a conta literal do aumento no combustível e na energia é a população. O episódio mostra novamente que a dependência de combustíveis fósseis, além de agravar as mudanças climáticas, também traz riscos econômicos e de segurança energética.
A seguir, o Observatório do Clima explica por que a dependência de combustíveis fósseis é um problema para o Brasil.
Por que o petróleo caro é sinônimo de inflação?
O petróleo é negociado globalmente em dólar. Por isso, a alta do preço do barril e a valorização da moeda americana tendem a aumentar os custos de combustíveis e energia em diversos países. Isso significa risco de preços mais altos para produtos como gasolina, diesel e gás de cozinha.
O impacto não se limita aos combustíveis. Como o transporte de mercadorias depende majoritariamente de diesel, o encarecimento também pode pressionar o preço de diversos produtos, incluindo alimentos. Ou, claro, de passagens aéreas, que dependem do querosene de aviação.
O Brasil está entre os dez maiores produtores de petróleo bruto do mundo. Em 2024, produziu cerca de 3,5 milhões de barris por dia, o equivalente a aproximadamente 3,6% da produção global. Ao mesmo tempo, é o sétimo maior consumidor, com cerca de 2,6 milhões de barris diários.
Apesar da produção elevada de óleo cru, o país ainda depende de importações, principalmente de derivados. Parte das refinarias brasileiras foi projetada para processar principalmente petróleo muito mais leve do que o produzido no país, o que limita o processamento total nas refinarias nacionais. O petróleo do pré-sal, responsável por 78,8% da produção nacional, é pesado.
Isso significa que o Brasil exporta petróleo bruto, mas também importa petróleo e derivados. Em 2024, o país importou 103,2 milhões de barris de petróleo, o equivalente a cerca de 280 mil barris por dia, principalmente da África (40%) e do Oriente Médio (23%).
No caso dos derivados, as importações somaram 34,4 milhões de metros cúbicos, o equivalente a cerca de 216 milhões de barris no ano ou aproximadamente 592 mil barris por dia.
Os principais produtos importados foram diesel, GLP (gás liquefeito de petróleo) e gasolina A (combustível sem adição de etanol), que responderam por 41,7%, 9,8% e 8% das importações totais, respectivamente.
A Petrobras, que define os preços dos combustíveis no país, ainda não anunciou reajustes no mercado interno desde o início da guerra. Ainda assim, alguns postos já têm cobrado valores mais altos. Diante dessas elevações, o governo federal pediu uma investigação sobre possíveis irregularidades.
Na última quinta-feira (12), o governo anunciou que não cobrará imposto relacionado ao diesel e que vai taxar exportação de petróleo para conter os preços por causa da guerra.
Caso o conflito se prolongue e os preços internacionais permaneçam altos, aumenta o risco de reajustes nos combustíveis.
A matriz energética brasileira não é predominantemente renovável?
Sim, mas uma parte ainda depende de combustíveis fósseis. Considerando a capacidade instalada de geração de energia no país, os fósseis ainda representam 14,8% do total. Na geração de eletricidade, 12% da energia produzida em 2024 veio de fontes não renováveis.
O gás natural, também um combustível fóssil, tem ganhado espaço na matriz. Em 2024, a demanda pelo combustível cresceu 4,7%, impulsionada principalmente pela geração de eletricidade. No mesmo ano, o Brasil aumentou em 30% as importações de gás natural liquefeito (GNL), que totalizaram 8,4 bilhões de metros cúbicos naquele período.
As usinas termelétricas, que costumam ser acionadas em períodos de escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas, dependem justamente desses combustíveis fósseis, principalmente do gás fóssil. Em julho de 2025, por exemplo, o governo federal inaugurou “a maior usina termelétrica a gás natural do Brasil” no Porto do Açu, no Rio de Janeiro.
A dependência de fósseis também é forte no transporte. O óleo diesel de origem fóssil representa cerca de 70% do consumo de energia do setor, já que a maior parte do transporte de carga no Brasil depende do sistema rodoviário
O governo federal está elaborando o Plano Nacional de Transição Energética (Plante), que deveria orientar a estratégia brasileira para reduzir emissões e ampliar fontes renováveis. No entanto, além da demora para entrar em vigor, especialistas apontam que o plano ainda evita discutir a redução do uso de combustíveis fósseis.
A guerra e o preço alto do petróleo e do dólar podem afetar o setor de energias renováveis?
O tamanho do impacto depende, principalmente, da duração do conflito.
No caso dos biocombustíveis, a principal matéria-prima do biodiesel no Brasil é a soja, 74% do total em 2024. O cultivo da soja depende de fertilizantes importados — cerca de 85% do consumo nacional vem de fora. O Irã, por exemplo, é um importante exportador de ureia e amônia, dois insumos usados na agricultura.
Além disso, o Brasil importa todo o metanol utilizado na produção de biodiesel. Quando há restrições no acesso a esses insumos ou quando o dólar sobe, os custos de produção tendem a aumentar.
A energia solar fotovoltaica depende de importações de peças já prontas, como painéis. Rodrigo Sauaia, presidente executivo da Absolar, afirma que o setor mantém estoques de peças e equipamentos, o que reduz o risco de impactos imediatos. A quantidade disponível, no entanto, é considerada uma informação estratégica e sigilosa pelas empresas.
Se o conflito se prolongar, os custos podem subir. “A questão cambial, os custos logísticos, os contêineres e o próprio combustível [já que o transporte ainda depende de fósseis] podem pesar e prejudicar a competitividade da energia solar no Brasil. É um ponto que estamos acompanhando”, afirma Sauaia.
Na energia eólica, o impacto inicial tende a ser menor. Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica, explica que o Brasil desenvolveu uma cadeia industrial relativamente consolidada no setor, o que ajuda a reduzir a exposição a choques externos no curto prazo.
“Projetos de 2026 provavelmente não serão afetados, porque as decisões de investimento em infraestrutura foram tomadas dois ou três anos antes”, diz. Ainda assim, a executiva lembra que a indústria depende de commodities importadas, como aço e minerais.
“Por mais que a indústria seja nacionalizada, o Brasil é um país aberto que faz comércio internacional e acaba sofrendo consequências. A grande questão é o grau e o quanto isso pode nos afetar — e isso depende da duração do conflito”, afirma.
Mais lucro com petróleo pode aumentar os investimentos em renováveis?
A ideia de usar recursos gerados pelo petróleo para financiar a transição energética não é nova. O argumento aparece com frequência em discursos de governos e empresas do setor, mas não tem sido praticado.
A Petrobras, por exemplo, costuma defender que os recursos obtidos com a ampliação da exploração de petróleo podem ajudar a financiar investimentos em fontes de energia de baixo carbono. Em 2024, a empresa registrou lucro líquido de R$ 110,1 bilhões, um aumento de cerca de 200% em relação ao ano anterior. Segundo a companhia, o resultado foi impulsionado principalmente pelo crescimento de 11% na produção de petróleo e gás, além da variação cambial. A empresa já bateu recordes de lucro em outros anos.
Apesar disso, o atual Plano de Negócios da estatal reduziu em cerca de 20% os investimentos previstos em transição energética, que caiu de US$16,3 bilhões para US$13 bilhões.
Grandes petroleiras globais também têm reduzido investimentos em energias renováveis. Entre as empresas que anunciaram um afastamento da transição estão a Equinor, Shell, BP e ExxonMobil.
Isso mostra que, mesmo com lucros elevados, as empresas do setor tendem a priorizar novos investimentos em combustíveis fósseis, em vez de acelerar a transição energética em um momento no qual o aquecimento global se intensifica rapidamente.