Deu no “The Needling”, um jornal satírico dos Estados Unidos: “Herói ambiental torna os combustíveis fósseis caros demais para qualquer pessoa continuar usando.” O “herói”, como você deve ter imaginado, é o psicopata americano Donald Trump.
O roteiro que levou a mais uma explosão no preço do barril do petróleo nas últimas duas semanas não tem nada de novo. Começa com a invenção de uma ameaça externa no Oriente Médio e segue para uma operação de bombardeio, onde morrem algumas centenas ou milhares de pessoas inocentes, tudo sob a cobertura complacente de uma imprensa habituada a lamber as botas de Israel e dos Estados Unidos.
O que há de “novo”, nesse caso, é a estratégia do país atingido. Líbano e Palestina – para ficar em dois dos exemplos recentes – não têm muito o que fazer, em termos de resposta, quando atingidos (ou massacrados). O Irã tem: fechar o Estreito de Ormuz, uma faixa marítima que é passagem obrigatória para 20% do petróleo mundial – aquele vindo de Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait, Iraque e Catar.
Desde que essa nova etapa da guerra teve início, no final de fevereiro, mais de mil navios estão parados no Golfo Pérsico, com receio de cruzar o estreito. A oferta em queda levou o barril do Brent, referência internacional para o petróleo bruto, a ultrapassar a casa dos US$100 – quase 30% a mais do que os U$72,48 que custavam antes de iniciado o conflito.
A conclusão é óbvia: o investimento em transição energética é também um investimento em segurança econômica (não há item, numa prateleira de mercado, que não esteja ligado ao preço do petróleo) e militar (Nicolás Maduro dificilmente seria sequestrado caso seu país produzisse bananas em vez de petróleo).
“Se os países não se convencerem pelo argumento climático de que deveriam transicionar para a energia renovável, talvez se convençam pelo impacto econômico. O preço do petróleo vai fazer a inflação disparar e empurrar pessoas para a pobreza, sobretudo em países que já têm dificuldades”, disse Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima, em entrevista nesta semana ao jornal O Globo.
É por isso que a Conferência de Santa Marta em abril na Colômbia, e o mapa do caminho rumo ao fim dos combustíveis fósseis, a cargo da presidência brasileira da COP30, se tornam cada vez mais necessários.
Boa leitura.
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Guerra repercute no Brasil, com alta de preços e do custo de vida; e não, não é oportunidade de ganhar mais dinheiro
O Brasil está entre os dez maiores produtores de petróleo bruto do mundo. Em 2024, produziu cerca de 3,5 milhões de barris por dia, o equivalente a aproximadamente 3,6% da produção global. Ao mesmo tempo, é o sétimo maior consumidor, com cerca de 2,6 milhões de barris diários.
Apesar da produção elevada de óleo cru, o país ainda depende de importações, principalmente de derivados. Isso significa que o Brasil exporta petróleo bruto, mas também importa petróleo e derivados. Em 2024, o país importou 103,2 milhões de barris de petróleo, principalmente da África (40%) e do Oriente Médio (23%). Em outras palavras: somos autossuficientes em petróleo bruto, mas não nos derivados. E é por isso que uma guerra no Irã repercute diretamente aqui.
A dependência de fósseis é forte sobretudo no transporte. O óleo diesel de origem fóssil representa cerca de 70% do consumo de energia do setor, já que a maior parte do transporte de carga no Brasil depende do sistema rodoviário. Há ainda um problema adicional no caso dos biocombustíveis: a principal matéria-prima do biodiesel no Brasil é a soja, e o cultivo da soja depende de fertilizantes importados (cerca de 85% do consumo nacional vem de fora). O Irã é um importante exportador de ureia e amônia, dois insumos usados na agricultura.
Por essas e outras não dá para torcer pelo barril a US$ 120, como pareceu fazer a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, no começo da guerra.
Esses e vários outros dados estão compilados numa lista com cinco perguntas e respostas que o OC preparou para explicar os pormenores da nossa dependência dos combustíveis fósseis.
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Mais de 50 países têm algum plano para reduzir o uso de combustíveis fósseis
Estudo que contou com participação do Observatório do Clima mostra que 46 países possuem algum tipo de plano de descarbonização no setor energético. Outros onze, como o Reino Unido, Noruega, Colômbia e Brasil, também estudam limitar ou reduzir a oferta de combustíveis fósseis. O documento também apresenta cinco critérios fundamentais para que mapas do caminho de transição para longe do carvão, petróleo e gás sejam eficazes. Leia mais aqui.
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Brasil e Colômbia têm mantido conversas frequentes sobre fim de fósseis
Após desentendimentos durante as negociações da COP30, realizada em novembro no Brasil, diplomatas brasileiros e colombianos voltaram a dialogar para garantir o sucesso da conferência convocada pela Colômbia para discutir a dependência global de combustíveis fósseis. O evento será realizado em abril, na cidade caribenha de Santa Marta. Os dois países também conversam sobre o mapa do caminho que o Brasil produzirá ao longo deste ano. Leia mais aqui.
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China reduz ambição climática
O rascunho do 15º Plano Quinquenal da China, divulgado na semana passada, não traz boas notícias para o clima (e o planeta). Apesar do alto investimento em renováveis, o país – maior emissor do mundo – propõe para o período de 2026 a 2030 uma meta climática menos ambiciosa do que a prevista no plano anterior, que abrangia o período de 2021 a 2025. Além disso, operou uma mudança na metodologia de cálculo de emissões e, agora, tem uma pedalada climática pra chamar de sua: o resultado será uma meta de redução de intensidade de carbono na economia bem menos rigorosa que a anterior. Mais aqui.
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Fundo Clima poderá financiar petroleiras
Desprezado por mais de uma década e paralisado no governo Bolsonaro, o Fundo Nacional sobre Mudança Climática vive hoje a situação do adolescente magrelo e espinhento que cresceu e virou o gato da faculdade: com mais de R$ 27 bilhões na carteira, começou a despertar a atenção do setor privado. Nem todo ele, porém, interessado em salvar o clima. Nesta semana, uma reunião que decidiu o plano de aplicação dos recursos em 2026 deu a luz verde para que projetos de CCUS (Captura, Armazenamento e Uso de Carbono) possam ser financiados. Essa tecnologia, desenvolvida por petroleiras, busca neutralizar emissões da extração de fósseis, estimulando, portanto, a produzir mais petróleo quando deveríamos estar buscando saídas para ele. O Observatório do Clima e a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria foram contra, mas foram votos vencidos na reunião.
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Agenda legislativa do agro propõe mais destruição em 2026
Tudo o que é ruim pode piorar. Como se não bastasse enterrar o licenciamento ambiental no ano passado, representantes da banda podre do agro brasileiro seguem sua marcha de destruição e pretendem, em 2026, reverter conquistas sociais, ambientais e civilizatórias garantidas na Constituição. A Agenda Legislativa do Agro, apresentada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) na última semana, mostra que setor fará lobby no Congresso por projetos de lei que acabam com direitos indígenas e quilombolas, que legalizam a grilagem de terras, que destroem o Código Florestal (cuja flexibilização em 2012 foi vendida pelo mesmo agro como essencial à “pacificação” e à “segurança jurídica”) e que revertem os instrumentos que permitiram o bem-sucedido controle do desmatamento nos últimos três anos. Mais aqui e aqui.
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Na playlist
Do libanês Ziad Rahbani, Shou Hal Ayyam (ou “que dia!”, em árabe).