Na Conferência de Bonn, organizações da sociedade civil, entre elas o Observatório do Clima, defenderam que o debate sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis permaneça vivo nas negociações da COP31 e que os países elaborem seus roteiros nacionais para eliminação gradual no uso desses combustíveis. Mas como seria uma transição alinhada à maior ambição possível? Estudo divulgado pela Climate Analytics na última semana traz a resposta.
O documento fornece dados sobre o TAFF (Transitioning Away From Fossil Fuels) para um conjunto selecionado de 15 países, com trajetórias alinhadas ao mais alto nível possível de ambição climática. O recado é claro: se quiser manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC até o final do século, o pico na produção e consumos globais de fósseis precisa ser atingido até 2030, com redução de 50% até 2035, até chegar a zero em 2070.
A realidade, porém, mostra que o mundo segue na direção contrária: a produção e consumo de fósseis continua a crescer. Entre maio de 2025 e abril de 2026, foram concedidas ao redor do mundo 779 novas licenças de exploração, que podem resultar na produção de 2,6 bilhões de barris de petróleo e 433 bilhões de metros cúbicos de gás natural, com potencial para emitir 2,1 bilhões de toneladas de CO2.
Os Estados Unidos lideram a lista, com 470 licenças emitidas no período. O Brasil aparece em quarto lugar, com 39 licenças e uma produção que só cresce: em abril de 2026, o governo brasileiro anunciou que o país registrou recorde na produção de petróleo e gás natural. Somente o petróleo teve alta de 19,5% naquele mês, em relação ao mesmo período de 2025.
“Novos campos de petróleo e gás são incompatíveis com qualquer transição crível para longe dos combustíveis fósseis. O consumo de gás precisa ser reduzido rapidamente, caindo para metade dos níveis de 2023 até 2035. No entanto, governos e empresas do setor continuam investindo bilhões na expansão da produção, particularmente de gás. Este é um caminho acelerado para o caos climático”, reforça Bill Hare, CEO da Climate Analytics.
O documento da Climate Analytics também indica que o TAFF é o caminho mais seguro para limitar o aquecimento global, com destaque para a eletrificação da economia. Caso contrário, o mundo terá de recorrer a alternativas consideradas arriscadas: depender cada vez mais de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS) e de remoção de dióxido de carbono da atmosfera (CDR), ainda limitadas e incertas, com potencial “severamente limitado por uma ampla gama de barreiras geológicas, tecnológicas e institucionais”. A outra opção seria aceitar níveis mais elevados de aquecimento e danos climáticos.
Trajetórias diferenciadas
A análise da Climate Analytics mostra que, apesar da necessidade de que todas as regiões do globo acelerem as ações para a transição para longe dos fósseis, as economias avançadas precisam liderar o processo.
Estados Unidos, União Europeia, Canadá, Japão, Austrália e Reino Unido, por exemplo, devem considerar a maior ambição possível, reduzindo drasticamente o uso de combustíveis fósseis imediatamente. Para estas nações, a demanda precisa diminuir entre 30 e 40% até 2030 – o que exige reduções anuais de cerca de 7 a 10% a partir de agora – , com eliminação total do uso de carvão, petróleo e gás em 2050. “As economias avançadas podem ser incubadoras de um futuro verdadeiramente neutro em carbono”, diz a análise.
Em seguida, deve vir o grupo dos países de renda média-alta, que inclui China, Brasil, México, Turquia e Colômbia. Para o Brasil, o cenário traçado foi de redução de 13% na demanda até 2030, 47% até 2035, 98% até 2050, alcançando 100% em 2070.
No cenário de Maior Ambição Possível, embora países emergentes e em desenvolvimento avancem em ritmo mais lento, todos concluem a eliminação dos combustíveis fósseis até 2070, em consonância com a transição global. Ainda assim, o aumento na temperatura atingiria 1,7ºC, para depois retornar para níveis abaixo de 1,5ºC antes de 2100.
Segundo a Climate Analytics, a análise não deve ser vista como um roteiro para que os países abandonem os fósseis, mas como um material crítico com evidências que podem auxiliar qualquer plano em nível nacional, que deve ser complementado por modelagem e análise de cenários, bem como avaliações e ações políticas, sociais e econômicas.
De forma geral, o estudo enfatiza ainda que os roteiros nacionais não devem se limitar a estabelecer datas para a eliminação dos combustíveis fósseis. Eles precisam abordar temas como reforma dos subsídios aos fósseis, diversificação econômica, medidas de transição justa para trabalhadores e comunidades, acesso a financiamento acessível para a transição, governança participativa e cooperação internacional, incluindo entre países produtores e consumidores de combustíveis fósseis.
“Esses roteiros podem então ser integrados à próxima rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e Estratégias de Longo Prazo (LTSs), de modo que o processo de transição apoie a implementação do Acordo de Paris e do Balanço Global, em vez de desviar a atenção deles”, diz a Climate Analytics.