Apenas sete estados foram responsáveis por mais da metade (56%) das emissões brutas de gases de efeito estufa do Brasil em 2024. Naquele ano – o mais recente com dados disponíveis – o país lançou na atmosfera 2,145 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente (GtCO₂e). Desse total, Pará, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Bahia e Rio Grande do Sul responderam por 1,197 bilhão de toneladas. Os dados são do SEEG, Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima.

Apesar de concentrarem a maior parte das emissões do país, esses estados têm perfis muito diferentes. O Pará, por exemplo, lidera as emissões e também a remoção de carbono. Já São Paulo, o quarto no ranking dos maiores emissores, remove apenas 5,6% do que emite. Em Minas Gerais e Rio Grande do Sul, a agropecuária é a principal fonte de gases de efeito estufa, ao contrário de Pará, Mato Grosso, Maranhão e Bahia, onde o desmatamento domina o ranking.

O Observatório do Clima selecionou os estados que emitiram mais de 100 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) em 2024 e também destacou as emissões líquidas – balanço entre emissões e remoções – de cada um deles.

“Para construir uma estratégia de net zero consistente, é necessário considerar ambas as dimensões. Os dados brutos ajudam a entender onde reduzir emissões; os dados líquidos ajudam a entender como cada estado tende a poder contribuir para o objetivo climático nacional”, explica David Tsai, coordenador do SEEG. 

Segundo ele, em um país tão diverso quanto o Brasil, os caminhos para alcançar o net zero não são iguais para todos os estados. A combinação entre redução de emissões e ampliação das remoções de carbono, porém, será essencial em todos eles.

Confira abaixo o perfil dos sete estados que mais emitiram gases de efeito estufa no Brasil em 2024:

Pará 

Desmatamento no Pará em 2024. Crédito: Agência Pará

O Pará lidera as emissões brutas de gases de efeito estufa no Brasil. Em 2024, o estado lançou na atmosfera 277,72 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e). É o menor volume registrado desde 2021, quando as emissões paraenses atingiram 537,67 MtCO₂e, mas não o suficiente para o tirar do topo do ranking.

Apesar de liderar as emissões brutas, o Pará registrou emissões líquidas de 111,4 MtCO₂e, após descontar o carbono removido da atmosfera pela fotossíntese das plantas. Segundo o SEEG, esse saldo vem caindo, em média, 1,9% ao ano na última década. Entre os sete estados analisados, o Pará foi o que mais removeu carbono da atmosfera. A maior parte dessa remoção ocorreu em áreas protegidas, como Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

O setor de Mudanças de Uso da Terra e Floresta, com destaque para o desmatamento (99,6% dentro desse setor), é o principal motor das emissões paraenses. Embora continue liderando o desmatamento na Amazônia, o Pará vem registrando quedas sucessivas desde 2022, segundo dados do INPE.

Na Agropecuária, a principal fonte de emissões é a fermentação entérica — processo digestivo de bovinos e búfalos, que emitem gases principalmente pelo arroto —,  responsável por 78% das emissões do setor. As emissões da Agropecuária seguem em crescimento desde 2008, após uma queda em 2007.

O Pará tem o segundo maior rebanho bovino e o maior de búfalos do Brasil. Segundo o Boletim Agropecuário Paraense 2025,  entre 1976 e 2024 o número de cabeças de gado do estado passou de 1,5 milhão de cabeças para 25,5 milhões, um aumento de mais de 15 vezes.

Em Energia, as emissões totais cresceram a uma taxa média de 0,4% ao ano. A categoria de transportes foi a principal fonte (67,2%). As emissões do setor de Resíduos Sólidos e Efluentes Líquidos (lixo e esgoto) cresceram 49,03% entre 2010 e 2024. Em Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP), as emissões diminuíram a uma taxa média de 1,02% ao ano.

Mato Grosso

Desmatamento no Mato Grosso. Foto: Ibama

Mato Grosso aparece em segundo lugar no ranking, com 231,17 milhões de toneladas (MtCO₂e) de emissões brutas em 2024. O estado registrou emissões líquidas de 172 MtCO₂e após descontar o carbono removido da atmosfera. Embora também apresente tendência de queda, o ritmo é menor que o observado no Pará: nos últimos dez anos, as emissões líquidas diminuíram, em média, 0,8% ao ano.

A maior parte das remoções de carbono ocorreu em áreas de vegetação secundária, formada pela regeneração de áreas anteriormente desmatadas.

O principal setor emissor em solo mato-grossense foi Mudança de Uso da Terra e Florestas, responsável por 54,4% das emissões totais do estado. Dentro dele, o desmatamento responde por 96% das emissões. As tendências, porém, variam entre os biomas. Na Amazônia, o desmatamento oscila de um ano para outro. No Cerrado, a perda de vegetação vem caindo desde 2022. Já no Pantanal, houve aumento expressivo do desmatamento entre 2022 e 2024, seguido de queda em 2025.

Mato Grosso é o segundo estado que mais desmata a Amazônia e lidera a destruição de vegetação em áreas não florestais do bioma.

A agropecuária aparece logo em seguida na lista de atividades emissoras no Mato Grosso e tem a fermentação entérica como a principal fonte de gases de efeito estufa, respondendo por 62,5% das emissões do setor. Dono do maior rebanho bovino do país, Mato Grosso tinha 32,8 milhões de cabeças de gado em 2024 — cerca de oito animais para cada habitante do estado. As emissões da agropecuária diminuíram entre 2023 e 2024, ano em que Mato Grosso liderou o número de abates de bovinos no país.

No setor de Energia, as emissões cresceram, em média, 2,8% ao ano na última década. Os transportes responderam pela maior parte delas (67,2%). Já as emissões associadas ao lixo e ao esgoto aumentaram 34,05% entre 2010 e 2024. Em Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP), houve queda média de 1,44% ao ano na última década.

Minas Gerais

Ao contrário dos dois estados que lideram o ranking nacional de emissões, Minas Gerais tem a agropecuária — e não a Mudança de Uso da Terra e Florestas — como principal fonte de gases de efeito estufa. Em 2024, o estado emitiu 189,96 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) no total, o terceiro maior volume do país. As emissões seguem em crescimento desde 2019.

As emissões líquidas ficaram em 162 MtCO₂e após descontado o carbono removido da atmosfera. A maior parte dessa remoção ocorreu em áreas de vegetação secundária. As emissões líquidas seguem estáveis no estado nos últimos 10 anos.

A fermentação entérica dos bovinos, processo digestivo que libera metano, respondeu por 62,5% das emissões da agropecuária. Minas Gerais possui o quarto maior rebanho bovino do país, com cerca de 22 milhões de cabeças de gado, e lidera a produção nacional de leite.

O segundo maior setor emissor é Mudança de Uso da Terra e Florestas. Nele, o desmatamento responde por 96% das emissões. O Cerrado, que ocupa mais da metade do território mineiro, concentrou 72,4% de toda a área desmatada em 2024, apesar de ter iniciado uma trajetória de queda na perda de vegetação a partir de 2023.

A Mata Atlântica, segundo maior bioma do estado, respondeu por 14% da área desmatada em 2024. Já a Caatinga, que ocupa uma parcela menor do território mineiro, foi o único bioma a registrar aumento da supressão de vegetação, concentrando 13,5% do desmatamento observado no estado.

No setor de Energia, as emissões diminuíram, em média, 1% ao ano na última década. Os transportes permaneceram como a principal fonte, respondendo por 62,7% das emissões do setor. As emissões associadas ao lixo e ao esgoto cresceram 34,05% entre 2010 e 2024. Em Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP), houve aumento médio de 1,48% ao ano na última década.

São Paulo

Trânsito intenso em São Paulo. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

São Paulo é o quarto maior emissor de gases de efeito estufa do Brasil, com 145,18 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) emitidas em 2024. O estado removeu apenas 5,6% do carbono emitido, principalmente em áreas de vegetação secundária. É o estado com a menor capacidade de remoção entre os sete maiores emissores do país. Com isso, as emissões líquidas somaram 137,04 MtCO₂e. Nos últimos dez anos, esse saldo diminuiu, em média, 1,6% ao ano.

O principal setor emissor é o de Energia, impulsionado sobretudo pelos transportes, responsáveis por 56% das emissões. São Paulo possui a maior frota de veículos do país. Em 2024, eram 3,3 milhões de automóveis, motocicletas, ônibus, caminhões e outros veículos em circulação — o equivalente a cerca de um veículo para cada 1,4 habitante. Para comparação, Minas Gerais, estado com a segunda maior frota do Brasil, possuía quase 14 milhões de veículos no mesmo ano. Apesar disso, as emissões do setor de Energia vêm caindo, em média, 1,1% ao ano na última década.

A agropecuária aparece em seguida. Assim como nos demais estados do ranking, a principal fonte de emissões do setor é a fermentação entérica dos bovinos (52%). As emissões agropecuárias paulistas oscilam de um ano para outro.

O terceiro maior setor emissor é o de resíduos sólidos e efluentes líquidos, que reúne as emissões associadas ao lixo e ao esgoto. Entre 2010 e 2024, as emissões desse setor cresceram 9%.

Em Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP), houve aumento médio de 7,11% ao ano na última década. Já o setor de Mudança de Uso da Terra e Florestas aparece na última posição entre as fontes de emissão do estado e registra tendência de queda.

Maranhão 

Lavoura de cultivo de soja avança sobre a vegetação do cerrado na região do Vão do Uruçuí, nos Gerais de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O Maranhão ocupa a quinta posição entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do país. Em 2024, o estado lançou na atmosfera 129,12 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e), impulsionado principalmente pelo desmatamento. Após descontar o carbono removido da atmosfera, as emissões líquidas ficaram em 104,38 MtCO₂e. Nos últimos dez anos, esse saldo cresceu, em média, 1,6% ao ano. A maior parte das remoções de carbono ocorreu em áreas de vegetação secundária.

O principal setor emissor é Mudança de Uso da Terra e Florestas. Dentro dele, o desmatamento responde por 98,7% das emissões. Estado situado na transição entre a Amazônia e o Cerrado, o Maranhão seguia, em 2024, uma tendência de aumento do desmatamento tanto na floresta amazônica quanto nas formações não florestais do bioma. No Cerrado, a perda de vegetação apresentou queda naquele ano, mas ainda assim o estado é o segundo que mais desmatou o bioma, conforme mostram os dados do INPE desde 2001.

A agropecuária aparece como a segunda maior fonte de emissões. A principal responsável é a fermentação entérica dos bovinos (73%). As emissões agropecuárias seguem em trajetória de crescimento.

No setor de Energia, as emissões diminuíram, em média, 0,3% ao ano na última década. Os transportes permaneceram como a principal fonte, respondendo por 40,8% das emissões do setor.

As emissões associadas ao lixo e ao esgoto cresceram 20,4% entre 2010 e 2024. Em Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP), houve aumento médio de 0,6% ao ano na última década.

Bahia 

Na sexta posição entre os maiores emissores do país aparece a Bahia, que emitiu 116,36 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e) em 2024. Assim como Pará, Mato Grosso e Maranhão, o principal motor das emissões baianas é o desmatamento. Após descontar o carbono removido da atmosfera, as emissões líquidas ficaram em 92,21 MtCO₂e. Nos últimos dez anos, esse saldo cresceu, em média, 1,1% ao ano. A maior parte da remoção de carbono ocorreu em áreas de vegetação secundária.

O principal setor emissor é Mudança de Uso da Terra e Florestas. Nele, o desmatamento responde por 97,6% das emissões. A Bahia se destaca por concentrar pressões sobre diferentes biomas: lidera o desmatamento na Caatinga, ocupa a segunda posição na Mata Atlântica e também registra perda significativa de vegetação no Cerrado.

A agropecuária é a segunda maior fonte de emissões do estado. A principal responsável é a fermentação entérica dos bovinos (70,4%). As emissões agropecuárias seguem em crescimento.

No setor de Energia, as emissões diminuíram, em média, 1,4% ao ano na última década. Os transportes permaneceram como a principal fonte, respondendo por 53% das emissões do setor.

As emissões associadas ao lixo e ao esgoto cresceram 26,7% entre 2010 e 2024. Em Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP), houve redução média de 0,5% ao ano na última década.

Rio Grande do Sul

Assim como Minas Gerais, o Rio Grande do Sul tem a agropecuária como a principal fonte de gases de efeito estufa. Em 2024, o estado lançou na atmosfera 107,88 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e), o sétimo maior volume do país. As emissões brutas aumentaram em relação a 2023.

Após descontar o carbono removido da atmosfera, as emissões líquidas ficaram em 91,69 MtCO₂e. A maior parte dessa remoção ocorreu em áreas de vegetação secundária. Nos últimos dez anos, as emissões líquidas diminuíram, em média, 0,2% ao ano.

A fermentação entérica dos bovinos, processo digestivo que libera metano, respondeu por 45% das emissões da agropecuária. O cultivo de arroz aparece como a terceira principal fonte de emissões do setor, com 16,4% do total.

O segundo maior setor emissor é Mudança de Uso da Terra e Florestas. Dentro dele, o desmatamento responde por 99% das emissões. Embora tenha registrado queda no desmatamento da Mata Atlântica em 2023 e 2024, o Rio Grande do Sul é o terceiro estado que mais suprimiu vegetação deste bioma desde o início da série histórica do INPE, atrás apenas de Minas Gerais e Bahia.

O estado também concentra integralmente o Pampa brasileiro. Entre 1985 e 2024, a área de campos nativos do bioma encolheu de 9,8 milhões para 5,9 milhões de hectares. Proporcionalmente, o Pampa é o bioma que mais perdeu vegetação nativa no país, com as maiores reduções ocorrendo na última década.

No setor de Energia, as emissões diminuíram, em média, 0,3% ao ano na última década. Os transportes permaneceram como a principal fonte, respondendo por 58,3% das emissões do setor. As emissões associadas ao lixo e ao esgoto cresceram 8% entre 2010 e 2024. Em Processos Industriais e Uso de Produtos (PIUP), houve redução média de 4% ao ano na última década.