Plantação de soja em Alto Paraíso (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Na newsletter: o spin do agro, o precoce Beryl e a transição no gerúndio

Edição traz a conta do PIB do agronegócio, temporada de furacões no Atlântico e a insistência brasileira nos fósseis

08.07.2024 - Atualizado 08.07.2024 às 12:48 |

A expressão inglesa “spin” é uma dessas com múltiplos significados. Literalmente, ela significa “giro”. Em química, designa o movimento dos elétrons em torno de si mesmos, ocupando diferentes níveis de energia no átomo. Em relações-públicas, “spin” é o que se faz para vender uma ideia, não necessariamente falsa, mas com uma embocadura que favorece o emissor. Gira-se a verdade para mostrar o melhor ângulo para o propagandista.

Nos últimos dez ou 15 anos, o agronegócio brasileiro vem construindo um caso extremamente bem-sucedido de “spin”. O setor que abriga o que há de mais arcaico e destrutivo na economia brasileira – trabalho escravo, desmatamento, contaminação por pesticidas, concentração fundiária e primarização econômica – vem conseguindo vender a si mesmo como “pop, tech, tudo”, criando no caminho um verdadeiro movimento cultural no interior do país. Uma das narrativas fundadoras dessa máquina de propaganda é que o agro, “a indústria riqueza do Brasil”, responde por 23% do PIB nacional. E quem detém um quarto do PIB, malandro, pode fazer o que quiser impunemente.

O número real, como você lerá abaixo, é bem menos brilhante: segundo o IBGE, instituição que mede o PIB brasileiro, a agropecuária responde por 7% da riqueza nacional, contra 25% da indústria e 67% dos serviços. E mesmo esses 7% foram construídos à base de muito subsídio público, tanto direto – como os R$ 400 bilhões em crédito em parte subsidiado do Plano Safra, anunciado nesta semana – quanto indireto, com a sociedade pagando as externalidades do desmatamento. Para fazer a mágica dos 23%, o agro computa fatores indiretos, como insumos, indústria e serviços.

Nesta edição, você também verá dois outros casos dramáticos de “spin”. Um, literal: o furacão Beryl, uma massa mortífera de ventos giratórios que atingiram os 250 km/h e que se tornou nesta semana a tempestade de categoria 5 (a mais forte na escala Saffir-Simpson, que mede o poder de tormentas tropicais) mais precoce já registrada no Atlântico tropical. E outro figurado: o governo brasileiro forçando a mão para aumentar a produção de petróleo enquanto promete um plano de transição energética que, pelo menos até agora, simplesmente não existe.

Boa leitura.

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DO PIB DO AGRO

Setor computa, impunemente, fatores indiretos para reportar uma geração de riqueza mais de 3 vezes maior

Com certeza você já ouviu a cifra: o agronegócio responde por quase um quarto do Produto Interno Bruto do Brasil. Ela é repetida o tempo todo, sem questionamento, em noticiários, discursos de políticos e nas propagandas do tipo “pop, tech, tudo”. Não é exatamente mentira, mas trata-se de um caso clássico de “spin”, quando fatos são organizados numa narrativa para favorecer algo ou alguém.

Como o Fakebook.eco mostrou nesta semana, a cifra oficial, contabilizada pelo IBGE, é outra: a agropecuária respondeu por R$ 677,6 bilhões em 2023. O total das riquezas produzidas no país no ano foi de R$ 10,8 trilhões. O agro responde, portanto, por 7,14% do total, descontado o valor dos impostos. A indústria é responsável por 25,5% e os serviços, por 67,4% desse valor. Se considerado o total das riquezas (R$ 10.856,1 bilhões), a agropecuária responde por 6,2%, a indústria por 22,2% e os serviços por 58,8% (os outros 12,6% correspondem aos impostos sobre produtos).

As organizações do agronegócio há anos contabilizam fatores diretos e indiretos, os insumos, a produção agropecuária, a agroindústria e os serviços associados ao agro (chamados de “agrosserviços”). Elas não escondem essa metodologia particular para produzir um dado que lhes favorece. Mas a embutiram na narrativa do setor que “carrega o país nas costas” com muita eficiência e, o que parece incrível, sem questionamento. Um case de sucesso de construção de marca.

E o céu é o limite para os spin doctors do agro: como mostrou a jornalista Giovana Girardi nesta semana na Agência Pública, o setor agora parte para se reposicionar no debate sobre a crise do clima. A fórmula é simples: colocar-se como vítima da crise climática, mas sem discutir em momento algum seu papel de causador do problema (com desmatamento e emissões de metano pelo rebanho bovino, por exemplo). A turma da botina está confiante de que vai conseguir meter mais essa impunemente; afinal, sempre conseguiu, né?

Sempre teremos Paris?

ULTRADIREITA AMEAÇA AÇÃO CLIMÁTICA NA FRANÇA

A França volta às urnas amanhã, domingo, para o segundo turno das eleições legislativas. Depois da vitória da coalizão Reagrupamento Nacional (RN), da protofascista Marine Le Pen, com 33% dos votos na primeira rodada, o país tem a chance de barrar a ultradireita e reverter o cenário, já que apenas 76 das 577 cadeiras do legislativo francês foram decididas no primeiro turno. Especialistas e ativistas climáticas ouvidas pelo Observatório do Clima apontam que uma vitória da extrema-direita significaria uma “interrupção brusca” na ação climática e na transição ecológica no país, com desdobramentos “catastróficos”. Análise da Climate Action Network (CAN)/França mostrou que, ao mesmo tempo em que ignora a crise climática, o programa do RN avança em uma agenda antiambiental e de fortalecimento dos fósseis, os principais responsáveis pela crise do clima. Há propostas que limitam o desenvolvimento das energias renováveis, criando demanda para o uso de carvão e gás fóssil. Mais aqui.

Precoce

FURACÃO BERYL CHEGA AO MÉXICO APÓS DEIXAR RASTRO DE DESTRUIÇÃO NO CARIBE

Nascido no fim de junho, o furacão Beryl tornou-se em 1o de julho a primeira tempestade tropical de categoria 5 (com ventos de velocidade superior a 252 km/h) registrada tão cedo no Atlântico. Após arrasar duas ilhas em Granada e matar pelo menos dez pessoas por lá e na Jamaica, Beryl atingiu a Península de Yucatán, no México, na manhã desta sexta-feira (5) enfraquecido para categoria 2 – classificação para furacões com velocidade entre 154 e 177 km/h. No entanto, enquanto você lê esta newsletter, ele pode ter passado com mais força pelo Golfo do México. Segundo a Administração Nacional Oceânica (Noaa), dos Estados Unidos, há uma chance de 85% de a temporada de furacões, que dura de 1 de junho a 30 de novembro, ser acima do normal no Atlântico em 2024. O Mar do Caribe, berço de Beryl, apresentou nos últimos dias uma temperatura que seria atingida somente em setembro, auge da temporada.

Novo normal

EMISSÕES DE CO2 POR QUEIMADAS CRESCEM NO PANTANAL E NO ÁRTICO

O serviço climatológico europeu Copernicus afirmou que a estimativa de emissões de carbono relacionadas aos incêndios no Pantanal estava mais alta do que a média de 2002-2023 durante a primeira quinzena de junho no Mato Grosso do Sul, estado que abriga a maior parte do bioma no Brasil. Neste ano, o Pantanal já registrou 3.858 focos de incêndios. É o número mais alto da história para o período, mais de 2.100% maior do que no ano passado. O Copernicus também alerta para o aumento de emissões dos incêndios florestais no Círculo Polar Ártico, especialmente na República de Sakha, na Rússia. “O Ártico tem aquecido a uma taxa muito superior à do planeta como um todo. Como resultado, as condições nas altas latitudes do norte estão se tornando mais propícias aos incêndios florestais”, explica Mark Parrington, cientista sênior do Serviço de Monitoramento Atmosférico do Copernicus.

“Floresta úmida não pega fogo”

MUDANÇAS CLIMÁTICAS MUDAM COMPORTAMENTO DAS QUEIMADAS NA AMAZÔNIA

Uma nota técnica produzida por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e da Nasa mostra que os incêndios florestais na Amazônia brasileira aumentaram, apesar da redução dos alertas de desmatamento em 2023. De janeiro a dezembro, 107.572 km2 foram queimados, um aumento de 36% em comparação com o mesmo período de 2022. Por outro lado, os alertas de desmatamento caíram de 10.278 km2 para 5.154 km2, 50%. O documento também aponta que em 2023 mais vegetação nativa (56,7%) foi queimada do que áreas agrícolas e com pastagens (43,3%). Cenário diferente de 2022, ano no qual florestas e campos naturais representaram 37% da área queimada e a parte ocupada pela agropecuária 62%. “O aumento da área afetada por incêndios pode ter sido um reflexo das condições climáticas que permitiram a expansão da área afetada pelo fogo, enquanto a redução da área queimada associada a práticas agropecuárias pode ter sido um efeito da redução do desmatamento”, diz a nota. Leia mais aqui.

Segue o seco

SUPERFÍCIE DE ÁGUA NO BRASIL FICA ABAIXO DA MÉDIA EM 2023, SEGUNDO MAPBIOMAS

Dados do Mapbiomas Água referentes ao período de 1985 a 2023 mostram que a superfície de água no Brasil diminuiu 1,5% em comparação com a média histórica. Na Amazônia houve uma retração de 3,3 milhões de hectares em relação a 2022. O Pantanal foi o bioma que mais secou ao apresentar água 61% abaixo da média da série histórica. No Cerrado, os corpos de água naturais perderam 696 mil hectares, uma queda de 53,4%. Mesmo havendo cheias no Rio Grande do Sul entre setembro e novembro de 2023, a superfície de água do Pampa ficou 2% abaixo da média histórica. Por outro lado, a Mata Atlântica e a Caatinga ficaram acima da média, 3% e 6%, respectivamente. Leia mais aqui.

Rolando lero

BRASIL PRIVILEGIA FÓSSEIS E CONTINUA SEM PLANO DE TRANSIÇÃO DE ENERGÉTICA

O Observatório do Clima insistiu, mas não conseguiu arrancar do Ministério de Minas e Energia muitas informações sobre o plano de transição energética. Nem data de lançamento tem, apesar de o ministro Alexandre Silveira dizer desde janeiro de 2023 que a transição é uma prioridade para o país. A história não para na ausência de um planejamento. O Brasil quer explorar mais combustíveis fósseis e diz não ver contradição com uma transição energética. Especialistas consultados pelo OC explicam que a única maneira de limitar o aquecimento da Terra é parar a expansão da produção de fósseis. Não existe transição com petróleo e gás. Leia mais aqui.

Nem tão baixo carbono

SENADO QUASE DOBRA LIMITE DE EMISSÕES DO HIDROGÊNIO VERDE BRASILEIRO

Em menos de dois minutos, sem discussão e fora do prazo, o Senado praticamente dobrou o teto de emissões de CO2 pelo hidrogênio verde produzido no país, contou a Folha. O Projeto de Lei que regulamenta o setor, original da Câmara dos Deputados, vinha sendo discutido no Senado desde junho. Na última quarta, quando o prazo para alterações no mérito da proposta já estava esgotado, o senador Fernando Farias (MDB-AL) apresentou – às pressas e num papel anotado à mão – a emenda, que foi aprovada pelo relator Otto Alencar (PSD-BA). O limite para que o hidrogênio seja considerado de “baixo carbono”, que era de 4kg de CO2 (para cada 1 kg de hidrogênio produzido), passou para 7 kg. Resta saber como o Brasil pretende vender hidrogênio de baixo carbono competindo com blocos cujo limite de gás poluente é bem inferior. É o caso da União Europeia (4,4 kg de CO2/kg de H2), China (4,9 kg) e Estados Unidos (2kg).

Alô, Luiz Inácio!

MOVIMENTO INDÍGENA VAI REDISCUTIR APOIO AO GOVERNO FEDERAL

Não são apenas os servidores do Ibama que estão descontentes com as prioridades definidas pela articulação política do governo Lula. A opção por rifar pautas caras à base que o elegeu para (não) ganhar apoio no Congresso de maioria ruralista tem gerado tensões também com o movimento indígena. Na próxima segunda-feira (8/7), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) se reunirá para discutir a relação e o apoio ao governo federal.

NA PLAYLIST

Num intervalo de poucos dias a gente teve a impressão de que estava no século 21 e não em algum conto distópico: no dia 25 de junho, o STF descriminalizou o porte de maconha para consumo pessoal. Em 4 de julho, o Reino Unido encerrou por lavada os 14 anos de governo do Partido Conservador, que tirou o país da União Europeia após uma campanha de fake news em 2016. Enquanto o Congresso não aprova a infame PEC das Drogas e reverte a decisão do Supremo, ficamos com essa joia de Pepeu Gomes, O mal é o que sai da boca do homem.

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